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Quando os gênios falham

“Os mercados podem permanecer irracionais por mais tempo do que você pode permanecer solvente.”
John Maynard Keynes

Quando os gênios falham

Se você fosse abordado por seu assessor/planejador/alocador para aportar em um fundo de investimento, você provavelmente faria algumas perguntas ou ele mesmo já lhe passaria tais informações. Sendo assim, vou escrever aqui alguns pontos que geralmente são abordados quando o assunto é fundo de investimento, para que todos possam conhecer mais sobre o “produto” que quero comentar hoje.

Gestor principal: John Meriwether (conhecido por seus notórios resultados em Wall Street)
Co-gestores: a elite dos traders de Wall Street, a nata dos acadêmicos de finanças e matemática das melhores universidades americanas, todos com PhD e dois prêmios Nobel de Economia, dentre eles Scholes, que postulou a fórmula para o preço médio de uma opção.
Aporte inicial: US$ 10 milhões.

Base de clientes: pouco mais de 100 cotistas, sendo os grandes bancos mundiais e algumas famílias multimilionárias, eventualmente bilionárias.
Patrimônio líquido do fundo: US$ 100 bilhões
Exposição líquida do fundo: US$ 1 trilhão
Cota inicial: US$ 1,00
Cota após 48 meses: US$ 4,11
E então, você toparia (caso o aporte inicial não fosse impeditivo, claro!)?

Parece impossível dar errado, pois temos muito dinheiro de gente grande, que não precisa resgatar, com uma rentabilidade espetacular e gerido por gênios.
Pois bem, deu muito errado! Esse fundo existiu na década de 90 e ficou conhecido pelo nome de LTCM (Long-Term Capital Management), sendo até hoje sinônimo de tragédia financeira.

Ele foi lançado em Abril de 1.994, teve seu topo histórico em Abril de 1.998 e, posteriormente, em alguns dias, precisou ser liquidado com a cota valendo US$ 0,33, quase arrastando consigo todo o sistema financeiro mundial.

Pessoas do calibre de Warren Buffett e George Soros foram chamadas para ajudar a conter a sangria, para reverter os prejuízos, mas era tarde demais. Ninguém conseguiu solucionar os problemas: arrogância, prepotência, soberba, alavancagem excessiva, crença que o futuro será uma cópia do passado e, em minha opinião, o pior de todos, que ausência de volatilidade é ausência de risco.

Atualmente, invisto 75% do meu capital em fundos e não passo um dia sequer (sem exagero, algum!) sem pensar nessa história, sem lembrar de Roger Lowenstein e seu livro espetacular QUANDO OS GÊNIOS FALHAM – A Ascensão E A Queda Da Long-Term Capital Management, leitura obrigatória para quem se atreve a fazer alocação de patrimônio.

Sempre que posso, confronto os gestores dos fundos que eu invisto sobre os erros da LTCM e como evitá-los.
Para nosso alívio (parcial, é verdade, pois nunca podemos baixar a guarda, podemos até ficar nas cordas, mas com guarda alta), o mercado de fundos no Brasil é muito regulado e monitorado, os custos para alavancagem são elevados e, em boa parte dos casos, as áreas de controle de riscos são independentes da gestão.

Enfim, a gestão dos fundos que invisto não está no meu controle. Posso apenas monitorar de perto, ir a eventos, ler as cartas, trocar e-mails, frequentar palestras, sentir como o gestor se comporta em eventos importantes no mercado… mas a alocação em um gestor sou eu que decido. Sendo assim, evito concentração excessiva, por mais brilhante que a asset seja, por mais inteligente que o gestor seja, por mais impecável que o histórico seja, pois fundos são feitos de pessoas e todo homem está sujeito a erros.
Espero não ter apavorado ninguém, sinceramente, nunca foi meu objetivo.
Mas nunca se esqueça: mesmo os gênios falham!

Até a próxima!

Autor: Marcelo Marçal

P.S.: Já revelei aqui, em outro artigo para esse blog, que tenho por hábito copiar pessoas que julgo excelente no que fazem. Sendo assim, exercitarei abaixo essa minha característica. Explico: após o texto pronto, mandei-o por e-mail para o Henrique Bredda – pessoa inteligentíssima e estudiosa, se você não o conhece, vale muito um Google – e ele, sabe-se lá por que, me respondeu conforme aspas e fonte diferente abaixo.

“Fala, Marcelo, blz?

Seu texto está excelente. Eu faria algumas mudanças, na verdade uma adição. Essa parte a seguir:

“Parece impossível dar errado, pois temos muito dinheiro de gente grande, que não precisa resgatar, com uma rentabilidade espetacular e gerido por gênios.”

Eu mudaria para:

“Para um leigo, parece impossível dar errado, pois temos muito dinheiro de gente grande, que não precisa resgatar, com uma rentabilidade espetacular e gerido por gênios. Mas para quem conhece minimamente de probabilidade, sabe que a ocorrência de um evento adverso pode matar o fundo do dia para a noite, dada a altíssima alavancagem, e não importa a genialidade de quem o gere.”
Warren Buffett já discorreu intensamente sobre o assunto da LTCM, e essa passagem é de um ensinamento valiosíssimo:

“It’s…an interesting story…The whole story is really fascinating because if you take John Merriwether, and Eric Rosenfeld, Larry Hilibrand, Greg Hawkins, Victor Haghani, the two Nobel Prize winners, Merton and Scholes, if you take the 16 of them, they probably have as high an average IQ as any 16 people working together in one business in the country…an incredible amount of intellect in that room. Now you combine that with the fact that those 16 had had extensive experience in the field they were operating in…In aggregate, the 16 had probably had 350 or 400 years of experience doing exactly what they were doing. And then you throw in the third factor that most of them had virtually all of their very substantial net worths in the business. So they had their own money up. Hundreds and hundreds of millions of dollars of their own money up. Super high intellect, working in a field they knew. And essentially they went broke. And that to me is fascinating… But to make money they didn’t have and didn’t need, they risked what they did have and did need, and that’s foolish. That is just plain foolish. Doesn’t make any difference what your IQ is. If you risk something that is important to you for something that is unimportant to you, it just does not make any sense. I don’t care whether the odds are 100 to one that you succeed or 1,000 to one that you succeed. If you hand me a gun with a thousand chambers – a million chambers in it – and there’s a bullet in one chamber, and you said, “put it up to your temple, how much do you want to be paid to pull it once?” I’m not going to pull it. You can name any sum you want but it doesn’t do anything for me on the upside and I think the downside is fairly clear. [Laughter] So I’m not interested in that kind of a game. And yet people do it financially without thinking about it very much.”
-Warren Buffett

Abraço,
Henrique Bredda

Recomendações:

Marcelo Marçal 04 de janeiro de 2018 BancosFundo de InvestimentoLHxMercadoRisco

Artigo por

Nasci em 1979, em Pontalina - GO. Estudei lá a vida inteira e fui criado por uma família com forte formação religiosa e que estimulava muito a carreira estudantil. Desde a infância, aprendi com meus pais a ser um poupador. Em 1996, vim para Goiânia e me formei em Medicina na UFG, onde também me especializei em Anestesiologia. Meu contato com o mercado financeiro começou desde o primeiro dia que comecei trabalhar, em 10/12/2002. Desde então, alterno leituras, cursos, eventos, trocas de experiência com profissionais respeitados tanto em Anestesiologia quanto em Investimentos. Invisto atualmente 95% do meu capital em fundos (multimercado, previdenciário e de ações) e concentro meus estudos nesse ramo, tentando entender a gestão, o processo decisório, as posições de cada asset... Minha frase preferida está em um baita livro chamado O VALOR DO AMANHÃ, de Eduardo Giannnetti: "Os juros são o prêmio da espera ou o preço da impaciência."

5 Comentários

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    Ótimo texto!!

    Ótimo texto, meu amigo. Sempre um prazer aprender contigo. Grande abraço.

    Parabéns pelo texto!!!



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