252

Por que é sempre vantajoso não investir na Poupança?

Entenda como surgiu a poupança, as suas vantagens e desvantagens, bem como as alternativas que te oferecem a mesma segurança com uma rentabilidade maior

 

Temos visto um forte reflexo da mudança que está acontecendo na mentalidade do brasileiro quanto à forma de pensar sobre seus investimentos. Até maio desse ano, a própria poupança, desde sempre tida como a ‘queridinha’ dos brasileiros quando o assunto é investimentos, registrou um resultado negativo na ordem dos R$ 17 bilhões de reais. Neste mesmo período, os fundos de investimento, por outro lado, tiveram captação líquida de quase R$ 45 bi.

Tais acontecimentos denotam um período de transição que merece ser ponderado e alvo de reflexão, sendo este período caracterizado essencialmente pelo desapego de maneira gradual de investimentos hoje obsoletos – como a poupança tem se mostrado -, aliado à  percepção geral da existência de outras opções disponíveis no mercado, as quais têm se mostrado cada vez mais atrativas e acessíveis ao público em geral. E o objetivo dessa matéria é justamente apresentar, de forma descomplicada e simples, as principais opções que dispomos na renda fixa que servem de alternativa à poupança.

Antes disso, vamos partir para uma explanação breve do que compõe o produto da poupança em si e vamos destacar os seus principais prós e contras.

A Caderneta de Poupança é datada de 1861, de iniciativa do então Imperador Pedro II. O investimento, desde a sua gênese, tinha como seu público-alvo pessoas de baixa renda e possuía como sua proposta principal a garantia por parte do governo de que o seu investimento ali colocado renderia o montante de 6% ano.

Até os dias de hoje houve uma ampliação vultosa de sua abrangência e dificilmente você vai conhecer alguém que não utilize ou nunca tenha utilizado a poupança para deixar uma renda excedente que sobrou ali no final do mês para ‘não ficar parado’ e, de fato, neste caso pode até aparentar ser uma boa opção, mas até o final da matéria vamos poder analisar melhor se, mesmo nessa situação, o investimento mais vantajoso continua sendo este.

Para isso, vamos apontar aqui sua composição atual e seus principais prós e contras.

A poupança possui regra distinta a depender da data do depósito: a poupança antiga, aquela cujos depósitos datam de antes de 3 de maio de 2012, era composta por um percentual fixo de 0,5% ao mês (ou 6,17% ao ano), acrescido pela TR (Taxa Referencial), que serve como um indicador de reajuste.

Com o advento da Medida Provisória nº 567, de 2012, esta regra apenas se mantém quando a Taxa SELIC for superior a 8,5% ao ano. Em situações cuja projeção da SELIC anual esteja igual ou inferior a esse percentual, o valor da poupança será 70% da SELIC, acrescidos também da Taxa Referencial, a qual, vale ressaltar, dificilmente apresentará algum valor distinto de 0%, valor fixo mensal desde setembro de 2017.

Os principais prós deste tipo de investimento são:

Acessibilidade – conforme falamos anteriormente, desde a sua concepção, a proposta da poupança é de que seja um investimento de fácil acesso e de uso extremamente intuitivo. Já é procedimento de praxe dos bancos, por exemplo, ao emitirem seus cartões de crédito ou débito para seus clientes, enviarem de forma concomitante um cartão específico para a poupança, da mesma forma é comum notar que a própria plataforma on-line (ou internet banking) da maioria dos bancos já possui adaptação para fácil gerenciamento do status da sua poupança, bem como a execução de operações como aplicação e resgate de valores;

 

Liquidez – pilar fundamental que deve ser avaliado ao se fazer a análise de qualquer tipo de investimento. A liquidez pode ser compreendida como a facilidade existente em se converter qualquer ativo disponível (seja um imóvel, algum título de dívida que você possua ou algum bem que represente um capital) em dinheiro. Quanto mais rápida for viabilizada essa conversão, mais líquido é o seu investimento. Assim, a poupança possui altíssima liquidez em razão da sua possibilidade de resgate imediato, ou, na linguagem de mercado, D+0;

 

Segurança – Na mesma linha que boa parte dos investimentos presentes na renda fixa, uma grande vantagem existente neste produto é a sua segurança. Primeiramente porque, como o órgão responsável é o próprio governo federal, a possibilidade de se incorrer no chamado risco de crédito (risco de você não receber o seu dinheiro aplicado, ou, na linguagem comum, “tomar calote) é a de o próprio governo federal quebrar, o que não é lá tão provável. Em segundo lugar, porque a poupança é coberta pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito), organização sem fins lucrativos que assegura o pagamento de investimentos de até R$ 250 mil reais por instituição financeira, ou até R$ 1 milhão por CPF em caso de falência, intervenção ou liquidação. Assim, mesmo que o governo federal quebre, o seu investimento permanecerá seguro, e para aquele investidor conservador, com total aversão ao risco, essas características são muito bem vistas, o que justifica a adesão em massa por parte de tantas pessoas.

 

Entretanto, nem tudo são flores e, conforme pontuaremos a seguir, existem muitos contras que tornam inviável sua manutenção.

 Os principais contras:

Rentabilidade – Considerando as regras da nova poupança, conjuntamente com o que se tem percebido nesses últimos meses (marcados por uma taxa SELIC baixíssima fixada em 6,5% ao ano), o que se percebe é que o investimento quase não tem ganhado um juro real quando da sua aplicação. Juro real é a análise feita de determinado investimento que considera o quanto daquele investimento rendeu além da correção monetária, ou seja, já descontando a perda do poder de compra da moeda causada pela inflação. Considerando meses desse ano como março ou abril, que registraram uma taxa mensal de inflação (IPCA) de 0,75% e 0,57% respectivamente, o que se percebeu na prática foi que deixar seu investimento na poupança não serviu nem para a correção do valor de compra da moeda. Então, aquele investidor que realmente busca um ganho real nos seus investimentos – seja na renda fixa ou variável – deve fugir da poupança, pois muito possivelmente ao escolher isso estará caminhando na direção contrária;

 

Sistema de capitalização – Diferentemente do que se vê nos CDBs (Certificado de Depósito Bancário) ou nos Fundos de Investimento, onde vige o sistema de capitalização diária, a poupança apresenta capitalização mensal. Isso implica que, caso o investidor faça um planejamento de curto ou curtíssimo prazo em que ele tenha estipulado uma programação para efetuar o primeiro resgate em um período inferior a 30 dias, seu investimento sequer sofrerá correção. Para um investimento que possui como proposta um amparo ao público em geral, o qual muitas vezes não consegue fazer um planejamento financeiro eficaz, tal regramento aparenta ser bem contraditório;

 

Baixa Vantagem Comparativa – Principalmente em tempos como os atuais, caracterizados pela baixa da taxa de juros, é possível, com extrema facilidade, encontrar investimentos no mercado tão acessíveis quanto à poupança, com mesma liquidez e risco, mas que por natureza trazem uma rentabilidade maior. Dessa forma, concluímos que a poupança se mostra como um investimento com baixíssima vantagem comparativa frente a outros produtos fortes da renda fixa atual, os quais trabalharemos melhor adiante.

 

Dadas suas características, e tendo sido compreendida sua composição, bem como seus prós e contras, vamos trabalhar agora com três alternativas disponíveis no mercado para melhor atender ao investidor que deseja adentrar na Renda Fixa e atingir o objetivo de encontrar um investimento que vai lhe garantir um ganho real sobre as suas aplicações.

 

 

  • Tesouro SELIC (LFT)

Os títulos do Tesouro constituem sempre uma opção interessante para quem busca uma fuga da poupança, e o Tesouro SELIC talvez se configure até mesmo como a melhor saída para quem busca uma opção com atributos semelhantes, em frente segue o porquê.

Preliminarmente, é importante frisar que não existe necessariamente um investimento que, de fato, seja melhor ou pior do que o outro, mas sim investimentos mais ou menos adequados ao perfil e às necessidades de cada investidor.

Feita esta consideração vamos ao produto em si.

Explicando de forma simples, o Tesouro Direto é um investimento de renda fixa do Tesouro Nacional, cuja finalidade principal é a compra e venda de títulos públicos de dívida. Em outras palavras, no momento que você decide adquirir um título do Tesouro, você passa a ser credor do Governo Federal e este se compromete a lhe pagar aquele montante emprestado em um período determinado sob a correção de juros.

O motivo da escolha do Tesouro SELIC se dá pela similaridade com o produto da poupança: ambos são indexados à SELIC, taxa de juros básica da economia; ambos possuem uma boa liquidez, tendo como diferença o resgate dos títulos de tesouro se darem em 1 dia útil enquanto que para a poupança o resgate é imediato; ambos possuem a mesma segurança, visto que o órgão competente é o próprio governo federal.

Contudo, agora entra a diferença primordial: no Tesouro SELIC a rentabilidade conferida ao título é de 100% da SELIC, bem diferente dos 70% entregues pela poupança!

Mesmo com a incidência de tributação nós já percebemos uma grande diferença no retorno que obtemos nesses investimentos que praticamente possuem a mesma liquidez, mesma segurança e, ainda assim, rendimentos tão distintos.

Caso, por outro lado, se aposte num cenário de baixa de juros da economia, naturalmente o ideal seria apostar em algum investimento indexado à inflação. Mas esta discussão deixamos para outra conversa.

  • Certificado de Depósito Bancário (CDB)

Os Certificados de Depósito Bancário – ou CDBs – funcionam na mesma lógica que os títulos do Tesouro, entretanto, neste produto o que muda é o órgão emissor do título de dívida. Enquanto no caso do Tesouro o órgão emissor do título é o Tesouro Nacional, no CDB a instituição responsável passa a ser algum banco. Vale ressaltar também que neste produto passamos a contar com o mesmo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) que vimos na poupança, o que configura também um grande atrativo.

Os CDBs podem ser: pré-fixados, quando no momento da aplicação já se sabe exatamente o percentual de juros a ser recebido; pós-fixados, quando, ao invés do percentual exato de aplicação, o que se sabe é o indexador a ser utilizado, sendo geralmente ou indexado ao CDI (índice utilizado como benchmark nas aplicações de renda fixa) ou ao IPCA, ou seja, à inflação; ou híbridos, com um percentual fixo de juros acrescido de algum percentual variável atrelado a algum referencial.

Quanto à liquidez, o CDB pode ser de liquidez diária ou no vencimento. No primeiro caso vemos uma situação semelhante ao que vimos na poupança em termos de liquidez: no dia em que for necessário efetuar o resgate do seu dinheiro ali aplicado, você terá o acesso ao dinheiro. No segundo caso, também é possível realizar o resgate antecipado, mas geralmente é cobrado um penalty pelo banco que descontará boa parte da rentabilidade obtida até então, assim, o mais indicado é só realizar o investimento no CDB sem liquidez diária no caso de você não ter necessidade daquele dinheiro dentro daquele período em uma situação de emergência.

O grande contraponto, logicamente, ao CDB com liquidez diária é a redução na rentabilidade. De fato, quando se analisa qualquer investimento disponível no mercado existe uma tendência natural em: conforme se diminui a liquidez, se aumenta o retorno obtido. Um dia a mais para o gestor de um Fundo ou para uma instituição sob a custódia do seu dinheiro já faz diferença considerável para o balanço interno e já nos traz como contrapartida de um retorno considerável.

Dessa forma, para aquela pessoa que busca um investimento com a maior similaridade possível com a poupança, a ideia principal seria buscar um CDB atrelado ao CDI (que possui forte correlação com a taxa SELIC), com possibilidade de resgate imediato. Na prática, o investidor vai perceber uma considerável mudança nos seus rendimentos obtidos.

  • Fundos de Renda Fixa

Por fim, conforme foi comentado no início da postagem, esta modalidade de investimento tem se mostrado cada vez mais interessante para quem deseja adentrar no mercado financeiro e conciliar investimentos líquidos, seguros e com boa rentabilidade.

Os Fundos de Renda Fixa são uma categoria dentre os Fundos de Investimento que possuem um percentual mínimo de 80% dos seus investimentos alocados em produtos de renda fixa.

Adiante seguem os principais motivos pelos quais os Fundos de Renda Fixa terem se tornado, se não no melhor, em um dos melhores produtos disponíveis na renda fixa:

Quanto à liquidez: existe total flexibilidade de escolha por parte do investidor acerca do quanto de liquidez ele está disposto a sacrificar em troca de rentabilidade. Existem fundos disponíveis no mercado tanto com liquidez diária (D+0), como com liquidação em 5 úteis (D+5), ou até mesmo 30 dias corridos (D+30). Em outras palavras: no mesmo dia ou em 5 dias úteis ou em 30 dias corridos o valor solicitado cairá na sua conta. Importante frisar que existem fundos com os mais variados prazos para liquidação, então o ideal aqui é conciliar a escolha de um fundo com a sua necessidade de liquidez para aquele investimento.

Assim, caso você tenha segurança sobre a desnecessidade de manter aquele seu dinheiro totalmente disponível para uma situação de emergência, não faz sentido aplicar todo o seu investimento em um fundo de liquidez diária (D+0), pois, dessa forma, você estaria perdendo dinheiro.

Quanto à segurança: apesar de não contarem com o FGC, os Fundos de Renda Fixa são investimentos bastante seguros. Em primeiro lugar devido à diversificação da carteira, de forma que, diferentemente dos produtos anteriormente citados, em que todo o seu capital estaria alocado em um CDB ou Título do Tesouro específico, ao investir em um fundo, você está aplicando em diversos títulos públicos, debêntures e outros investimentos ao mesmo tempo, e que vão variar conforme a composição da carteira. Desse modo, mesmo no caso de alguma aplicação eventualmente quebrar, seu investimento continuará resguardado, visto que constitui uma fração mínima da carteira do fundo. E, como se pode perceber na prática, a taxa de risco (ou volatilidade) apresentada na rentabilidade dos Fundos de Renda Fixa é mínima, sendo, costumeiramente, abaixo de 1%. Assim, até mesmo o investidor mais avesso ao risco pode colocar sua cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente todos os dias, pois seu investimento estará resguardado.

E, por fim, a rentabilidade: uma das principais razões que justificam esse ingresso em massa dos investidores que têm adentrado neste segmento é a sua rentabilidade. Não é raro encontrarmos bons fundos disponíveis no mercado que entregam uma rentabilidade acima de 100 a 110% do CDI mensalmente, retorno que encontraríamos apenas em CDBs fechados (e caso fosse necessário o uso de parte desse dinheiro incorreríamos no penalty comentado anteriormente) ou em títulos fechados com vencimento bem distante, o que também comprometeria seriamente a liquidez do investimento.

Assim, temos aqui um investimento que traz ótimos retornos, com boa segurança e com liquidez ajustável às necessidades do investidor, o que torna fácil explicar o porquê de, a cada mês que se passa, tanto volume de investimentos entrar neste mercado.

Feitas estas considerações, tenho certeza que ficou claro o porquê de ser sempre vantajoso não investir na poupança. Pois agora você, leitor, além de já conhecer melhor as informações e composição deste produto, bem como seus prós e contras, conhece também ótimas alternativas da renda fixa capazes de suprir a sua necessidade de liquidez e segurança anteriormente obtidas na poupança, porém com uma rentabilidade consideravelmente maior, o que finalmente vai garantir o ganho real nos investimentos tão almejados por quem inicia sua jornada no mercado financeiro.

Recomendações:

Arthur Guedes 25 de julho de 2019 Educação FinanceiraFundo de InvestimentoPoupança

Artigo por

Oriundo de Brasília, mas com boa vivência nas outras regiões tupiniquins. Passei 12 anos da minha vida em Minas Gerais, sendo 9 desses em Uberaba (vulgo “Beraba”, para os íntimos) e 3 em Barbacena; quase 2 anos em Salvador, antiga cidade da Bahia; também passei por cidades marcantes e acolhedoras como Pirassununga, onde fiquei por 1 ano, terra da 51; e Goiânia, por também 1 ano. Parte dessas aventuras se deu pelo meu tempo de militar. Aos 14 anos passei num concurso que me levou para compor as fileiras da EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar) e, após a formação, fui para a AFA (Academia da Força Aérea), onde fui cadete aviador e tive meus tempos de piloto. Porém, já tinha ficado claro para mim que o meu destino não era ser militar e decidi sair. Foi um momento difícil, mas logo depois, em 2016, iniciei meus estudos em Economia na Universidade de Brasília (UnB). Durante o mesmo período, dei início aos meus estudos sobre mercado financeiro e, mesmo que de maneira indireta, já começava a exercer meu trabalho de assessoria de investimentos, ajudando familiares e amigos mais próximos a investir melhor. Por fim, após dois anos atuando no Superior Tribunal Militar (STM), na área da Folha de Pagamentos, decidi oficializar a minha entrada no mercado financeiro e, após ser aprovado em primeira tentativa na prova de admissão para a certificação de Assessor, me juntei à LHx e tenho sido bem feliz, aprendendo coisas novas todos os dias e me realizando profissionalmente.

0 Comentários

Deixe o seu comentário!

Não existem comentários
Informe seu e-mail para receber as novidades